domingo, 22 de novembro de 2009

um homem doente

passei um café
abri a geladeira
só tinha um pingo de leite
joguei numa xícara e
despejei café.

peguei um pão
cortei
passei margarina
joguei ketchup
mergulhei na xícara e o
engoli.

peguei outro pão
e fiz a mesma coisa.

rasguei um terceiro
mordi e
coloquei uma colher grande de
Nescau
na boca.

comi o quarto seco
engoli o resto do leite com café
e amaldiçoei uma prostituta
por não haver mais leite.

pus café até a metade da xícara
peguei outro pão
dei uma mordida
e queimei minha boca
com o café quente.

comi o sexto pão pensando na inutilidade
daquilo tudo
joguei o resto de café na pia
virei o vidro de ketchup na mão
lambi o pouco que deixei cair
abri a geladeira
guardei a margarina
o ketchup
peguei um pote de sorvete
tomei um bocado
fechei aquela porta branca
e me obriguei a sentar aqui
e escrever.

essa ansiedade não vai acabar agora
e eu não quero vomitar
hoje.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

antologia de uma escritora fracassada

“To com 40 de
febre. Se morrer
fica com os
meus livros e
prepara uma
antologia de
tudo o que eu
escrevi?

Remetente:
Katrina

Enviada:
19/11/2009
07:32:20 pm”

“Claro, pode
deixar comigo.
Eu cuido de tudo.
Mas sua
antologia vai ser
muito maior,
meu. E os textos
de quando voce
for uma velha
brava com
problema de
pulmao serao
imortais.

Enviada a:
Katrina

Data e hora:
19/11/2009
07:37:36 pm”

eu acho mesmo que ela ainda escreverá
algo vivo, de vida mais longa
que os 60, talvez 70 anos
que o cigarro a deixará viver.

há uma senhora de 75 anos
que vive cachimbando na calçada
de frente pra minha casa

ela provavelmente morrerá
de velhice.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

boca viciada

ela molhou meus nervos
com saliva e
lágrimas
e eu
inebriado
no escuro
não dei a ela nenhum abraço de conforto
e meu sexo ainda não era nenhum
consolo.

ela chorou a madrugada rendida
insegura e temerosa
que eu me fosse solto
e a deixasse sozinha
com gostos demais
de que sentir falta.

medo de viver privação maior que
três dias a água e angústia
e provar o resto da vida
com uma boca viciada
que toma café
depois de comer um brigadeiro
e o sente
amargo.

domingo, 8 de novembro de 2009

ele estava sozinho quando tinha a minha idade

“primeiramente, eu queria pedir
que vocês me deixassem ficar
2 minutos na companhia de vocês
nessa viagem.
eu tô sóbrio
não tô alterado
só tô com a roupa suja
com o corpo fedendo a suor
e lixo.”

aperta no punho a roupa preta
manchada
que veste.

“eu trabalho.
puxo minha carroça
sou carroceiro.
trabalho todo dia da semana
exceto no domingo
porque não tem ferro-velho
nesse dia.”

ele olha mais para mim
que para qualquer outro, porque eu
presto atenção.

“eu consegui 90 centavos hoje
já passei por 24 ônibus
este é o vigésimo quinto
e ainda vou passar por alguns
porque o dia tá acabando
e eu tô de jejum.
fome dolorida.”

ele mostra as moedas na mão
suja de unhas marrons
e aperta a barriga inexistente
enchendo a punho
com a camiseta.

“eu não peço que ninguém me dê nada
que vá faltar à sua família
filhos
irmãos
porque eu sei como a vida é dura aqui.
eu me lembro
que há 20 anos eu estava deitado num colchão
num chão frio de apartamento.
meu primeiro dia em São Paulo
e eu estava sozinho
e até hoje eu sobrevivi aqui.
fiquei doente
os dentes apodreceram na boca
mais de 20 já caíram.
hoje eu tô na rua
e ainda sonho
com um dia ter família
amigos
como qualquer um de vocês
comida na mesa
uma cama pra dormir
um banho...
se o senhor quiser.”

terminou.
apertou o sinal de parada
e uma senhora estendeu
uma moeda de 10 centavos
outra uma de 25
acho, não consegui enxergar.
eu peguei 2 reais da carteira
entreguei em sua mão
e espalmei a minha.
ele trocou as moedas e a
nota
de mão
e eu apertei sua mão
livre.

“sorte aí, irmão.”
“valeu, amigo”, ele respondeu
e sorriu com seus dentes pretos
remanescentes
“inclusive hoje eu completo meus
40 anos.”

“parabéns.”, sorri.
“valeu. até...”, foi até a porta
“valeu, motorista! boa viagem!”, e desceu
do ônibus.

sentada comigo
minha mãe
tinha lágrimas nos olhos
e me disse
“ele ficou feliz, Jamess.”
eu olhei pra rua e disse
“eu vi.”

terça-feira, 3 de novembro de 2009

seriam minhas melhores linhas

Henry Miller e Bukowski e
outros escritores
disseram já
que seus pensamentos de rua
de balcão
de cama
seriam suas melhores linhas
versos
livros
se os escrevessem.

Henry queria que uma pessoa caminhasse
com ele
calada
anotando todas as idéias que ele fosse
cuspindo no chão.

Bukowski fixava suas lembranças
desgostos e
idéias embriagadas
em Olympia
sua máquina.

e mesmo conhecendo
quão pequeno sou
escrevendo
ainda posso
divertir-me
acreditando
que o que penso escovando os dentes
ou esperando o trem
seria alguma coisa
escrita.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

vista seu capote e cubra o peito

um banco de cimento é frio demais
as calotas dos pneus em trânsito
a chapa da banca de jogo do bicho
o metal nas gangorras e escorregadores
os portões cinzentos da igreja presbiteriana
a cruz em néon azul na capela do morro
a direção do cruzeiro do sul

um pedaço salgado que o mendigo descobre no lixo
o focinho do seu cão preto e peludo
a garganta seca do alcoólatra

frio é o peito do casal por conveniência
as maçãs do rosto em um cumprimento beijado
um aperto de mão saído de um bolso de pano
a glande de uma bexiga vazia

o jornal de empregos encharcado
uma poça de água limpa na quadra
grama pisoteada e úmida de chuva
bosta seca que se pisa em engano
meus tornozelos sem meias

fria é uma folga na terça-feira
depressão dia 27 de outubro.
frio é estar a mais de dois mil quilômetros da sua amante
e ter que cavoucar ânimo para cozinhar feijão
para ter algum almoço no trabalho do dia seguinte.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

o que ela diz é blues pra mim

a Andréa Mota

ela me fisgou o cognitivo
com um engodo simples:
boas histórias para a minha
atenção de deus.

sua filosofia de bonde
de olhos distantes
delírios de janela
invejou minha liberdade de trem
presa em linhas de ferro.
menina tola
e viva.

atrás dos óculos
sua mente quer abraçar
todo o cotidiano além do vidro
da janela
do ônibus

e muitas vezes consegue
e conta a um tal paulistano bucólico
sozinho na capital
dentro do compressor humano metropolitano
espremido em suor
distante das janelas.

"e ainda dizem que o paulista não conhece calor humano..."

dois desesperados sendo engolidos pelo mundo
e tendo consciência disso.
o que é o pior
ou nossa salvação.

talvez seja ela a única amiga que tenho.
ela não sumiu depois que flertamos por uns dias
e não nos beijamos
ou sequer bebemos juntos.
quero dizer
não me culpe por gostar de uma menina que
faz as letras dançarem na tela do meu computador
num ritmo que me faz estalar os dedos
acompanhando tudo, satisfeito.

o que ela diz é blues pra mim
e eu me felicito por ainda poder ouvi-lo
e não ter riscado nosso vinil com um caco de vidro
de um copo quebrado
em um bar escuro
por uma discussão apaixonada.

quero você para tomar um café de tarde
discutindo permeios
de devaneios.
fodas fodem o que seriam reais amizades
e eu não quero foder a nossa
ou você.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

colchão de casal no chão

o colchão maior clareia sua ausência
aumenta o vazio
a Vontade
o volume do TIC-TAC

me comovo com o carinho que te daria
e não me toco
sequer me animo
mas sorrio malícia
imaginando neste carinho morno
meus dedos deslizando lentos
por sua vulva
em descanso.

SEUS CABELOS me fogem
e eu idealizo seu baixo-ventre
eis a pena.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

minha idéia ama a sua

minha idéia ama a sua
com tal volúpia de lábios molhados
sugando um clitóris pungente
calor de ventres unidos
pescoço beijado
quadril e tapa

confusão de cabelos despenteados
de dedos alinhados
entrega de costas nuas
peito ofegante aberto
coxas tremendo

tal carinho de um beijo doce fervendo de orgasmo
de um abraço palpitante de conforto
de um último cafuné
de sussurros de “eu te amo” e
“boa noite."

-

(adoro achar coisas assim nos blocos de notas esquecidos.)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

minha menina

ela
a única que me correspondeu
em tudo o que meus versos predisseram
que os fez vivos
e quem eu espero
que me seja a Erato de poemas sentidos
por ainda muito tempo.

porque até meu suor dissipado é poesia
se o fez evaporar
ela
a quem eu chamo
minha menina.

de novo dois

saudade do seu cheiro
aquele da sua testa
ou o do lado do seu nariz.
saudade de ficar com o rosto
junto do seu
o que não era sexual
mas aconchegante e morno.
bom.

eu tenho saudade dos seus seios
bonitos que você não queria que eu visse.
saudade do cheiro de sexo em nós
e do hálito que fumávamos
um do outro.

saudade do seu bom-dia carinhoso
da sua mão no meu rosto
tocando minha barba e meu peito
suspirando de amor e preguiça.

saudade da pele macia e das suas cócegas,
dos seus medos cedidos
dos pelos curtos e dos cabelos longos
rebeldes presos
fugindo de um rabo-de-cavalo apertado.

saudade da sua liberdade
de se deitar comigo no chão
onde cães rolam e se coçam
e de tomar meio litro de sorvete de capuccino
sem culpa.

saudade das suas dúvidas e de sua entrega
cheia de descobertas de gostos
e cheiros
e sensações de dor.
saudade da sua preocupação com a minha vontade
quando minha única vontade era te ver bem e feliz.

saudade de apertar suas coxas
e te ouvir inspirando forte
ficando solta nos meus braços.
saudade dos seus músculos tremendo de leve
me pesando as pernas.

saudade da sua companhia
da sua amizade quase masculina
do picolé que deixou nossos beijos
gelados pra pele naquela tarde
dos banquinhos de madeira
do seu colo
e de tudo mais que seria piegas
ou obsceno demais
para ser dito
em um poema.

domingo, 11 de outubro de 2009

ela cantou

ela cantou
baixinho
e minhas lágrimas
desceram pelos lados do meu rosto
num fluxo contínuo
sem que eu tentasse pará-lo.

ela cantou
e toda minha culpa
se condensou em lágrimas
e vazou, líquida
quente.

ela cantou
com uma mão em meu peito
e outra no cabelo
e eu chorei
como uma criança.
como uma criança abandonada
que já tem ciência suficiente para saber que foi abandonada.
chorei sem saber causa
chorei sem vergonha do choro
e meu peito aberto ficou frio
e não era culpa do ar-condicionado.

meu corpo todo chorou
ciente que aquele conforto ele só teria naqueles braços
e que seria passageiro
sabendo que tudo fora desse quarto escuro é menor que esse abraço
que tudo é feio, vil, prostituído
e que homens pensam que têm que agir como idiotas
com as mulheres
e as mulheres se tornam frias.

ela cantou
e me perguntou se eu estava bem
e eu não estava
o mundo não estava.
em alguns segundos toda a consciência do horror bateu em meu peito
como uma marreta.
todo o feio, o vil, o ignóbil, o amoral
que minha mente julgava
passou pelos meus olhos
na velocidade da luz
e eu fui capaz de divisá-lo.

ela cantou
em uma voz doce
que ela menospreza ao extremo
e eu solucei de mágoa.
se quisessem que as pessoas
no corredor da morte
sofressem de verdade
tivessem seu inferno antes de sentar-se na cadeira elétrica
eles deveriam fazer com que a ouvissem cantar.
a simplicidade daqueles versos mal compreendidos
faria seus crimes crescerem em importância
em suas mentes cheias de perturbações.
o contraste entre a voz e seus atos
os poria confusos
"havia mesmo coisas assim?"

"onde?..."

terça-feira, 15 de setembro de 2009

vôo 1624

amanhã
o dia todo será um romance
e o final feliz
será a madrugada.
 
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